Ansiedade na volta às aulas: como ajudar seu filho sem pressionar
Por Dra. Mônica Belarmino, Psicóloga CRP 06/142333
Resposta rápida
A ansiedade na volta às aulas é comum em crianças e adolescentes e costuma aparecer como dor de barriga, choro, irritação ou insônia antes do primeiro dia. Os pais ajudam mais quando acolhem o medo sem aumentá-lo, retomam a rotina aos poucos e evitam cobranças. Se o sofrimento durar semanas ou impedir a ida à escola, vale procurar um psicólogo.
A mochila nova está pronta, o material já foi etiquetado, o uniforme está separado. E, mesmo assim, na véspera do primeiro dia, vem a dor de barriga. Ou o choro na hora de dormir. Ou o adolescente que fica trancado no quarto e responde tudo com “tanto faz”.
Se isso está acontecendo na sua casa, saiba que é muito comum. A ansiedade na volta às aulas faz parte da vida de muitas crianças e adolescentes. Ela não significa que algo está errado com o seu filho, nem que você errou como pai ou mãe.
A resposta direta é esta: você ajuda mais quando acolhe o medo sem aumentá-lo, retoma a rotina aos poucos e diminui a pressão por desempenho. Se o sofrimento durar semanas, atrapalhar o sono e a alimentação ou fizer a criança evitar a escola, é hora de conversar com um psicólogo.
Se você quiser conversar sobre o que está acontecendo com o seu filho, pode me chamar no WhatsApp e tirar suas dúvidas.
Por que a volta às aulas deixa tantas crianças ansiosas?
A volta às aulas deixa muitas crianças ansiosas porque reúne várias mudanças de uma vez: sair da rotina solta das férias, acordar cedo, reencontrar ou conhecer colegas, lidar com professores novos e voltar a ser avaliado. Para o cérebro infantil, tudo isso soa como incerteza, e a incerteza é um dos principais combustíveis da ansiedade.
A ansiedade, em si, é uma reação natural. Ela existe para nos preparar diante de algo que parece desafiador. Um pouco de frio na barriga antes do primeiro dia é esperado e até ajuda a criança a ficar atenta. O problema começa quando essa reação fica grande demais para a situação ou dura tempo demais.
Alguns fatores costumam pesar mais:
- Mudança de escola ou de turma, com a perda dos amigos conhecidos.
- Passagem de ciclo, como a entrada no primeiro ano, no sexto ano ou no ensino médio.
- Experiências difíceis no ano anterior, como conflitos com colegas, exclusão ou dificuldade com alguma matéria.
- Rotina de férias muito diferente, com horários de sono bagunçados e muito tempo de tela.
- Clima de tensão em casa, já que as crianças percebem a preocupação dos adultos mesmo quando ninguém fala dela.
- Temperamento mais cauteloso, de crianças que naturalmente precisam de mais tempo para se adaptar ao novo.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, entendemos que a ansiedade vem acompanhada de pensamentos de ameaça: “ninguém vai querer brincar comigo”, “a professora vai brigar comigo”, “eu vou errar na frente de todo mundo”. A criança nem sempre consegue colocar esses pensamentos em palavras, mas eles aparecem no corpo e no comportamento.
A ansiedade na infância é comum?
Sim. A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete jovens de 10 a 19 anos no mundo vive com algum transtorno mental, e os transtornos de ansiedade estão entre os mais frequentes nessa faixa etária. Isso mostra que a saúde emocional de crianças e adolescentes merece tanta atenção quanto a física.
Os dados estão na página da OMS sobre saúde mental de adolescentes, que também lembra que muitas condições começam justamente nessa fase da vida e, quando não são cuidadas, podem se estender para a vida adulta.
Isso não quer dizer que toda criança nervosa na véspera da escola tem um transtorno. A maior parte da ansiedade de volta às aulas é passageira e se resolve com acolhimento e rotina. O número serve para lembrar que, quando o sofrimento é intenso e duradouro, ele é comum, tem nome e pode ser tratado.
Quais são os sinais de ansiedade na volta às aulas?
Os sinais mais comuns são queixas no corpo sem causa aparente, como dor de barriga e de cabeça, choro na hora de sair de casa, dificuldade para dormir, irritação, perguntas repetidas sobre a escola e vontade de faltar. Em adolescentes, a ansiedade pode aparecer como isolamento, mau humor, uso excessivo do celular e queda no rendimento.
Em crianças menores
- Dor de barriga, enjoo ou dor de cabeça, principalmente de manhã ou nos domingos à noite.
- Choro, birra ou agarrar-se aos pais na porta da escola.
- Pesadelos ou dificuldade para dormir sozinho.
- Voltar a comportamentos de quando era menor, como pedir colo o tempo todo.
- Perguntas repetidas: “e se eu não achar a sala?”, “e se ninguém gostar de mim?”.
Em adolescentes
- Irritação desproporcional, respostas curtas, portas batendo.
- Ficar muito tempo no quarto ou no celular, evitando conversas.
- Insônia ou, ao contrário, dormir demais.
- Queixas sobre a escola, os colegas ou a própria aparência.
- Perfeccionismo intenso com notas, ou o oposto: parecer que “não liga para nada”.
Esses sinais não fecham diagnóstico. Eles são pistas para os pais observarem com mais atenção, especialmente se aparecem juntos e se mantêm por semanas.
Como ajudar seu filho sem aumentar a pressão?
Você ajuda seu filho sem aumentar a pressão quando acolhe o sentimento antes de tentar resolver, prepara a rotina com antecedência, oferece previsibilidade, evita frases que minimizam ou dramatizam o medo e valoriza o esforço em vez do resultado. O objetivo não é eliminar a ansiedade, e sim mostrar que ela pode ser enfrentada com apoio.
Um roteiro prático para as semanas da volta às aulas:
- Retome o horário de sono aos poucos. Alguns dias antes do início das aulas, adiante a hora de dormir e de acordar em pequenos passos. Sono desregulado deixa qualquer criança mais irritada e mais ansiosa.
- Converse sobre a escola sem interrogatório. Pergunte o que ela está pensando sobre a volta e escute. Às vezes o medo é algo bem concreto, como não saber onde fica o banheiro, e pode ser resolvido com uma informação simples.
- Nomeie o sentimento. Frases como “parece que você está preocupado com o primeiro dia” ajudam a criança a entender o que sente. Nomear a emoção costuma diminuir a intensidade dela.
- Valide sem reforçar o medo. “Faz sentido ficar nervoso com coisas novas, e eu sei que você consegue” funciona melhor do que “não precisa ter medo” ou “coitadinho, que horror”.
- Crie previsibilidade. Se possível, visitem a escola antes, mostrem o caminho, conversem sobre como será a manhã. Saber o que vai acontecer reduz a incerteza.
- Combine uma despedida curta. Na porta da escola, um abraço, uma frase combinada e tchau. Despedidas longas e cheias de hesitação tendem a aumentar a angústia.
- Valorize a coragem, não a perfeição. “Vi que foi difícil e você foi mesmo assim” ensina mais do que “tem que tirar nota boa este ano”.
- Cuide da sua própria ansiedade. As crianças leem o adulto. Se você também está tenso com a volta, tente conversar sobre isso com outro adulto, não na frente do seu filho.
Um exemplo para ilustrar
Imagine uma menina de oito anos que vai mudar de escola. Na véspera, reclama de dor de barriga e diz que não quer ir. A mãe, preocupada, responde: “você vai sim, não tem nada demais”. A menina se sente não compreendida e chora mais.
Agora imagine outra resposta: “você está com medo de não conhecer ninguém, né? É normal sentir isso. Amanhã eu te levo, a gente procura juntas a sua sala, e na saída você me conta qual colega te pareceu legal”. O medo continua ali, mas a criança se sente acompanhada. E isso muda a forma como ela atravessa o primeiro dia.
Tabela: o que dizer e o que evitar
| Frase que aumenta a pressão | Frase que acolhe e encoraja |
|---|---|
| “Para de bobagem, não tem motivo para ter medo.” | “Entendo que você esteja nervoso. Coisas novas mexem com a gente.” |
| “Este ano você precisa ser o melhor da turma.” | “Quero que você se esforce e aprenda. Erros fazem parte.” |
| “Se você não for, vai ficar de castigo.” | “Vamos pensar juntos no que pode deixar a manhã mais fácil.” |
| “Coitadinho, eu também ficaria apavorada.” | “Eu sei que você consegue, e estou aqui se precisar.” |
O que os pais devem evitar na volta às aulas?
Os pais devem evitar minimizar o medo, dramatizar a situação, permitir que a criança fuja da escola por qualquer desconforto, encher a agenda de atividades logo nas primeiras semanas e transformar o desempenho escolar no centro da conversa. Essas atitudes, mesmo bem-intencionadas, costumam aumentar a ansiedade em vez de reduzir.
- Dizer que o medo é “frescura” ou “bobagem”.
- Deixar a criança faltar sempre que ela sente desconforto. A evitação alivia na hora, mas tende a aumentar o medo depois.
- Falar mal da escola ou dos professores na frente dela.
- Comparar com irmãos, primos ou colegas.
- Começar o ano com cobrança de notas e um calendário cheio de cursos extras.
- Prometer que “nada de ruim vai acontecer”. Ninguém controla isso, e a criança percebe.
Quando procurar ajuda profissional?
Vale procurar ajuda profissional quando a ansiedade dura mais do que as primeiras semanas de adaptação, quando a criança se recusa a ir à escola por vários dias, quando o sono, a alimentação ou as amizades são afetados, ou quando aparecem sinais de tristeza persistente. Procurar um psicólogo cedo costuma tornar o processo mais leve para a família.
Alguns sinais que pedem mais atenção:
- A criança fica muito angustiada todos os dias, não só nos primeiros.
- As queixas no corpo são frequentes e o pediatra não encontrou outra causa.
- O adolescente se isola dos amigos e perde o interesse pelo que gostava.
- Há relato de bullying, exclusão ou conflito sério com colegas.
- A família sente que já tentou de tudo e nada funciona.
- Aparecem falas de desesperança, como “eu não sirvo para nada” ou “seria melhor não existir”.
Neste último caso, a ajuda precisa ser imediata. Procure um serviço de saúde, ligue para o SAMU no 192 ou para o CVV no 188, que atende de graça e 24 horas.
Como a terapia pode ajudar crianças e adolescentes ansiosos?
A terapia ajuda crianças e adolescentes a entenderem o que sentem, a identificarem os pensamentos que alimentam o medo e a aprenderem formas práticas de lidar com ele, sempre em um ritmo respeitoso. Os pais também recebem orientação para apoiar em casa sem aumentar a pressão. Cada processo é único e não existe prazo garantido.
No meu trabalho, uso a Terapia Cognitivo-Comportamental, uma das abordagens mais estudadas para ansiedade. Com adolescentes, isso significa conversas diretas sobre o que pensam e sentem nas situações que os deixam ansiosos, e o treino de pequenos enfrentamentos, passo a passo, para que o medo vá perdendo força. O sigilo das sessões é tratado com cuidado, para que o jovem se sinta seguro para falar.
Com crianças menores, o atendimento costuma ser feito por profissionais especializados em psicologia infantil, que usam jogos, desenhos e histórias para falar de emoções. Mesmo assim, a terapia dos próprios pais pode ser um apoio importante: um espaço para vocês entenderem o que está acontecendo, cuidarem da própria ansiedade e ajustarem a forma de apoiar em casa.
A família faz parte desse caminho em qualquer idade. Muitas vezes, pequenas mudanças na forma de conversar e de organizar a rotina já fazem diferença no dia a dia do filho.
Em mais de 15 anos de prática clínica e mais de 16 mil atendimentos, vejo que muitos pais chegam com culpa, achando que deveriam ter percebido antes ou que fizeram algo errado. Essa culpa raramente ajuda. O mais importante é que vocês perceberam agora e estão procurando caminhos.
Aqui em Barueri e em Alphaville, a volta às aulas costuma vir junto com rotinas intensas para as famílias. Se quiser entender melhor como funciona o acompanhamento, conheça a página de terapia de desenvolvimento pessoal ou fale comigo pela página de contato. Atendo presencialmente em Barueri e também online, para todo o Brasil.
Dra. Mônica Belarmino, Psicóloga CRP 06/142333
E se a volta às aulas fosse um treino de coragem?
A volta às aulas não precisa ser um teste em que a criança tem que provar que não sente medo. Ela pode ser uma oportunidade de aprender que é possível sentir medo e seguir em frente com apoio. Esse aprendizado vale para a escola e para a vida.
Coragem não é a ausência de medo. Para uma criança, coragem é ir para a escola sabendo que tem alguém esperando por ela na saída.
Você não precisa ter todas as respostas. Precisa estar disponível, acolher e confiar que, com o apoio certo, seu filho vai encontrar o próprio jeito de atravessar essa fase.
Se fizer sentido para a sua família, me chame no WhatsApp para agendar uma avaliação, presencial em Barueri ou online.