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Relacionamento abusivo ou só difícil? Sinais para observar

Por Dra. Mônica Belarmino, Psicóloga CRP 06/142333

Mulher sentada em uma poltrona perto da janela, pensativa, refletindo sobre o próprio relacionamento

Resposta rápida

A principal diferença é o medo e o controle. Num relacionamento difícil, os dois brigam, mas falam com liberdade e ninguém teme o outro. Num relacionamento abusivo, uma pessoa controla, humilha, isola ou ameaça a outra, que passa a medir palavras por medo. Em situação de violência, ligue 180 ou, em emergência, 190.

Antes de qualquer coisa: se você está em perigo agora, ligue 190 (Polícia Militar). Se você é mulher e precisa de orientação sobre violência, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) é gratuito, funciona 24 horas e pode ser acionado de qualquer lugar do Brasil. Este texto pode esperar. Sua segurança, não.

Se você chegou até aqui, talvez esteja se perguntando algo difícil: “o meu relacionamento abusivo é coisa da minha cabeça, ou ele é só um relacionamento difícil, como tantos outros?”. Essa dúvida, por si só, já diz muito. Ela costuma aparecer quando algo dentro de você percebe que alguma coisa não está certa.

A diferença mais importante entre uma relação difícil e uma relação abusiva não está na quantidade de brigas, e sim no medo e no controle. Vou explicar com calma o que observar, sem pressa e sem julgamento.

Se quiser conversar com sigilo, você pode me chamar no WhatsApp. Se for mais seguro, apague a conversa depois.

Qual é a diferença entre um relacionamento difícil e um relacionamento abusivo?

Num relacionamento difícil, os dois discordam, se magoam e brigam, mas existe equilíbrio de poder: cada um pode dizer o que pensa sem medo de punição. Num relacionamento abusivo, uma pessoa usa controle, humilhação, ameaças ou isolamento para dominar a outra, que passa a viver em alerta e a medir cada palavra.

Esta comparação pode ajudar a enxergar com mais clareza:

Relacionamento difícilRelacionamento abusivo
Nas brigasOs dois falam, se exaltam, mas podem discordarUm fala, o outro se cala por medo das consequências
Depois do conflitoExiste tentativa de reparo dos dois ladosUm culpa o outro pelo que aconteceu, ou finge que nada ocorreu
LiberdadeCada um mantém amigos, família, dinheiro e rotina própriaUm controla com quem o outro fala, aonde vai e o que gasta
Sentimento predominanteFrustração, cansaço, tristezaMedo, confusão, sensação de estar pisando em ovos
Diante de um “não”O “não” é respeitado, mesmo com desconfortoO “não” gera punição, chantagem ou ameaça

Relações difíceis podem ser muito dolorosas e também merecem cuidado. Mas elas não carregam esse elemento de dominação. Quando ele aparece, a conversa muda de figura.

Quais são os sinais de um relacionamento abusivo?

Os sinais mais comuns são controle (de celular, dinheiro, roupas, amizades), isolamento de família e amigos, humilhação em público ou em particular, ciúme usado como justificativa para vigiar, ameaças, explosões seguidas de pedidos de desculpa e a sensação constante de estar pisando em ovos. Nem todos aparecem juntos, mas o medo costuma estar presente.

Leia com calma e observe o que ressoa em você:

  • Você evita falar certas coisas porque já sabe que a reação vai ser desproporcional.
  • O seu celular, suas senhas ou suas redes sociais são vigiados, com ou sem o seu consentimento.
  • Você foi se afastando de amigos e da família, porque “dava briga” ou porque a outra pessoa não gostava deles.
  • Você não tem acesso livre ao seu próprio dinheiro, ou precisa justificar cada gasto.
  • Você é chamada (ou chamado) de louco, exagerado, burro ou inútil, em tom de brincadeira ou não.
  • Depois das explosões, vêm presentes, promessas e carinho intenso, até o próximo episódio.
  • Você já teve medo do que a pessoa poderia fazer com você, com seus filhos, com seus bichos ou com ela mesma.
  • Você sente que mudou muito desde o início da relação e já não se reconhece.

Esses sinais não são um diagnóstico. Mas, se vários deles aparecem na sua vida, vale buscar orientação com alguém de confiança e com profissionais.

Quando o abuso não deixa marca no corpo

Muita gente só considera abuso quando há agressão física. Mas a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), no artigo 7º, reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Em 2021, a Lei 14.188 incluiu no Código Penal o crime de violência psicológica contra a mulher.

A violência psicológica inclui humilhar, manipular, ameaçar, isolar, vigiar e ridicularizar. A patrimonial inclui reter documentos, controlar ou destruir bens e dinheiro. A moral envolve calúnia, difamação e injúria. Todas elas deixam marcas, ainda que não apareçam no espelho.

Quando você começa a duvidar da própria memória

Um padrão bastante descrito em relações abusivas é o chamado gaslighting: a pessoa nega coisas que disse ou fez, distorce fatos e repete que você está exagerando, até você passar a duvidar da própria percepção. Imagine alguém que ouve “eu nunca disse isso, você está ficando louca” tantas vezes que começa a anotar as conversas para ter certeza de que não inventou nada.

Se você se reconhece nisso, saiba: a confusão que você sente não é falha sua. Ela é um efeito conhecido desse tipo de dinâmica.

Por que é tão difícil perceber, e sair, de um relacionamento abusivo?

É difícil perceber porque o abuso raramente começa de forma explícita: ele cresce aos poucos, misturado com momentos de carinho intenso. E é difícil sair porque entram em jogo medo, dependência financeira, filhos, vergonha, esperança de que a pessoa mude e, muitas vezes, uma autoestima já muito desgastada pela própria relação.

A psicóloga norte-americana Lenore Walker descreveu, ainda nos anos 1970, o que ficou conhecido como ciclo da violência: uma fase de tensão crescente, uma fase de explosão e uma fase de reconciliação, às vezes chamada de “lua de mel”. Na fase de reconciliação, a pessoa pede desculpas, promete mudar, se mostra carinhosa. É justamente essa fase que alimenta a esperança e torna tão confuso decidir.

Por isso, quem está de fora não deveria perguntar “por que você não vai embora?”. A pergunta mais justa é “o que está tornando tão difícil sair, e como posso ajudar com segurança?”.

Em mais de 15 anos de atuação clínica, percebo que muitas pessoas que vivem situações assim chegam à terapia por outro motivo: ansiedade, insônia, tristeza, sensação de não ser boa o suficiente. Só depois de algumas sessões a relação aparece como parte central do sofrimento. E isso também é parte do processo.

E se eu também grito e perco a cabeça nas brigas?

Reagir com raiva a uma situação de controle e humilhação não transforma você em abusador. Em relações abusivas, é comum que a pessoa que sofre o abuso também exploda às vezes, justamente porque vive sob pressão. O que define o abuso é o padrão de dominação ao longo do tempo, e não um episódio isolado de descontrole.

Essa dúvida aparece muito, e quem pratica o abuso costuma usá-la a seu favor: “viu? Você também é agressiva”, “você é que me provoca”. Aos poucos, a pessoa passa a se ver como a culpada da relação.

Algumas perguntas ajudam a separar as coisas:

  • Quem tem medo de quem? Na dinâmica abusiva, o medo costuma estar de um lado só.
  • Quem controla os recursos? Dinheiro, carro, celular, contato com a família.
  • Depois da briga, quem precisa pedir desculpas, mesmo sem ter começado?
  • Quem muda o próprio comportamento para evitar a próxima explosão?

Isso não significa que gritar seja saudável, nem que você não possa trabalhar a sua forma de reagir. Significa que, para entender o que está acontecendo, é preciso olhar para o padrão inteiro. E se você perceber que é você quem controla, humilha ou ameaça, a terapia individual também é um caminho para mudar: reconhecer isso é um primeiro passo importante.

O que fazer se você reconhece esses sinais?

Se você reconhece esses sinais, priorize sua segurança: em risco imediato, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, ligue 180. Conte para alguém de confiança, guarde registros e documentos em lugar seguro e procure atendimento psicológico individual. Evite confrontar a pessoa sozinha, especialmente se houver histórico de explosões ou ameaças.

Um roteiro com passos possíveis, no seu ritmo:

  1. Reconheça o que está acontecendo, mesmo que só para você mesma por enquanto. Escrever ajuda a dar forma ao que parece confuso.
  2. Escolha uma pessoa de confiança e conte pelo menos uma parte da situação. Isolamento é um dos maiores aliados do abuso.
  3. Guarde provas e documentos em local seguro, fora do alcance da outra pessoa: mensagens, prints, fotos, registros de datas.
  4. Tenha um plano de emergência: para onde você iria, quem buscaria, que documentos levaria, onde estão as chaves.
  5. Busque orientação especializada. O Ligue 180 informa sobre direitos e serviços da rede de proteção, como delegacias da mulher e centros de referência.
  6. Procure atendimento psicológico individual, presencial ou online, para fortalecer sua autoestima e suas decisões.

O que evitar

  • Confrontar a pessoa sozinha em um momento de tensão.
  • Avisar com antecedência que vai sair da relação, se houver histórico de ameaça.
  • Deixar senhas, localização ou histórico de navegação acessíveis, se você estiver buscando ajuda.
  • Se culpar por “não ter percebido antes”.
  • Propor terapia de casal como solução para uma situação de violência.

Terapia de casal é indicada em relacionamento abusivo?

Não como primeiro passo. A terapia de casal pressupõe que os dois podem falar com liberdade na sessão, e isso não acontece quando um tem medo do outro. Falar algo difícil diante de quem controla pode aumentar o risco em casa. Nessas situações, o indicado é o atendimento individual e o apoio da rede de proteção.

Essa é uma posição bastante consolidada entre profissionais de saúde mental que trabalham com relacionamentos. Terapia de casal é um ótimo recurso para conflitos entre pessoas com poder equilibrado. Quando existe dominação, o foco precisa ser a proteção de quem sofre a violência.

Isso não quer dizer que você está sozinha. Quer dizer que o cuidado vem por outro caminho: primeiro a segurança, depois a reconstrução.

Como a terapia individual pode ajudar?

A terapia individual oferece um espaço seguro e sigiloso para você entender o que está vivendo, nomear o que antes parecia confuso, reconstruir a confiança na própria percepção e tomar decisões no seu tempo. A psicóloga não decide por você, mas ajuda a enxergar opções, fortalecer sua rede de apoio e cuidar das marcas emocionais que ficaram.

Trabalho com a Terapia Cognitivo-Comportamental, com formação pela PUC e pelo CETCC. Nesse contexto, o trabalho costuma envolver algumas frentes:

  • Nomear a experiência, entendendo como funcionam o controle, o ciclo de tensão e reconciliação e o gaslighting.
  • Rever crenças que o abuso reforçou, como “eu não consigo sozinha” ou “ninguém mais vai me querer”.
  • Fortalecer a rede de apoio, reaproximando a pessoa de amigos, família e serviços.
  • Cuidar da ansiedade, do sono e da autoestima, que costumam estar muito afetados.
  • Planejar decisões com segurança, em conjunto com a rede de proteção quando necessário.

Cada história é única, e não existe prazo nem fórmula para sair de uma relação assim. O que existe é acompanhamento, respeito ao seu ritmo e um lugar onde você não precisa provar nada para ser acreditada.

Se a sua dúvida for sobre uma relação difícil, mas sem medo ou controle, a terapia também ajuda a entender os padrões que se repetem e a decidir o que você quer. Você pode conhecer a página de terapia individual para relacionamentos ou ir direto para a página de contato. Atendo presencialmente em Barueri e online para todo o Brasil.

Dra. Mônica Belarmino, Psicóloga CRP 06/142333

Você não está exagerando por querer se sentir segura

Se a dúvida “será que é abuso?” mora em você há algum tempo, ela merece ser levada a sério. Relações difíceis cansam. Relações abusivas apagam. E ninguém precisa esperar chegar à agressão física para pedir ajuda.

Amor pode ter conflito. O que não deveria ter é medo de ser você mesma dentro dele.

Você tem o direito de ser ouvida, de ser acreditada e de decidir sobre a própria vida. Pedir ajuda não é trair ninguém. É cuidar de quem mais precisa de você agora: você.

Relembrando: em perigo imediato, 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180. Se você estiver pensando em se machucar, o CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas.

Quando se sentir pronta, me chame no WhatsApp para agendar uma avaliação, presencial em Barueri ou online, com sigilo.

Perguntas frequentes

Violência psicológica é crime no Brasil?

Sim. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) reconhece a violência psicológica como uma das formas de violência doméstica contra a mulher, e a Lei 14.188/2021 incluiu no Código Penal o crime de violência psicológica contra a mulher. Para orientação, o Ligue 180 atende gratuitamente, 24 horas.

Homem também pode viver um relacionamento abusivo?

Sim. Abuso pode acontecer em qualquer tipo de relação, com pessoas de qualquer gênero ou orientação. Em caso de risco imediato, qualquer pessoa pode ligar para o 190. A terapia individual também ajuda homens a reconhecer e sair de dinâmicas de controle e humilhação.

Terapia de casal resolve um relacionamento abusivo?

Quando há violência, ameaça ou medo, a terapia de casal não é indicada como primeiro passo, porque a pessoa que sofre o abuso não consegue falar com liberdade e pode correr mais risco depois da sessão. O caminho recomendado é o atendimento individual e a rede de proteção.

Como ajudar uma amiga que pode estar num relacionamento abusivo?

Escute sem julgar, evite frases como 'por que você não sai disso?' e deixe claro que você está disponível. Informe sobre o Ligue 180 e, se houver risco imediato, o 190. Respeite o tempo dela, porque sair de uma relação abusiva costuma ser um processo, e pressão pode afastá-la de quem quer ajudar.

Dra. Mônica Belarmino

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